A mentira sem graça

 

A mentira sem graça

 

Andava um casal a ceifar e ela dizia:

– Ai Manel que dia tão mau de passar, um dia atrás de outro, uma semana atrás de outra, nós aqui sozinhos.

Havia um senhor lá na aldeia com fama de ser muito mentiroso e diz ela, Hás de o chamar aqui a ver se ele diz uma mentira aqui á gente a ver se nos fartamos de rir, o melhor é rirmos um pouco a ver se se passa melhor a tarde.

Viram-no passar e :

– Hé Ti Quim! Diga lá uma mentirota aqui à gente. Ando aqui mais a minha Maria, os dois aborrecidos e enfadados de trabalhar.

– Olhe, contava-lhe uma anedota ou duas ou três ou uma mentira, mas olhe, não tenho vagar nenhum que tenho que ir para o Monte de Santana que morreu o Ti João.

E foi-se embora. Diz ela:

– Oh! Então um homem tão conhecido da gente, então agora continuamos a ceifar e não vamos lá acompanhar o homem um bocadinho? É melhor perdermos a tarde, vamos lá.

Chegaram lá e ouviram:

– Então por aqui hoje?

– O ti João morreu e viemos cá acompanhá-lo.

– Morreu? Então não o estão a ver ali sentado num banco conversando com os outros homens?

– Ah, homem de um cabrão que enganou a gente.

Quando estiveram com ele:

– Que coisa foi essa? Nós a querermos que você dissesse uma coisa para nós passarmos melhor a tarde e você prega-nos uma mentira daquelas, perdemos uma tarde de ceifa e isso tudo. Diz ele:

– Ó mulher! Foi o que se pôde arranjar.

 

Xico Zé

São João dos Caldeireiros

4 de Setembro 2020

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