A Zorra Cagaiteira

As mulheres tinham ido lavar a roupa para o barranco. Como levava tempo, levaram o pão para fazer umas migas. As migas estavam muito quentes, deixaram-nas a arrefecer e foram lavar.

Oh! Veio de lá a zorra, olha um tacho cheio de migas!

Comeu, comeu, comeu, não as deu acabadas, meteu-as em cima do pano e atou-o à volta da cabeça. Lá foi andando com a barriga tão cheia, agora não consigo passar a ribeira para o outro lado, disse.

Deitou-se ao pé da ribeira até que passou o compadre lobo.

– Então comadre, o que é que está aí fazendo?

– Tenho a cabeça aberta, queria passar lá para aquele lado e não sou capaz.

– Então suba para as minhas costas que eu a passo lá para o outro lado.

Pôs-se às costas do compadre lobo e iam atravessando a ribeira quando começa ela:

– Zorrinha cagaitêra farta de migas à cavalhêra

Passando a ribera às costas do compadre lobo.

Que é que você diz comadre?

Ó compadre o que é que ei-de dizer?

tenho a cabeça aberta e os miolos a aparecer.

Mais um bocadinho passando a ribeira e começa ela outra vez:

Zorrinha cagaitêra farta de migas à cavalhêra

Passando a ribera às costas do compadre lobo.

– O que é que você diz comadre?

Ó compadre, o que é que eu ei-de dizer? Tenho a cabeça aberta e os miolos a aparecer.

Disse aquilo outra vez e ele catrapumba para dentro da ribeira.

Oh! Com a barriga cheia custou-se a dar de lá tirada, lá conseguiu passar para o outro lado, deitou-se á beira da ribeira, o lobo foi-se embora, ela lá ficou deitada.

Passou o peixeiro que ia vender peixe lá á aldeia, viu ali a zorra, ela fez-se de morta, conforme ele chegou ao pé, ela deu um peido.

– Xii! Onde está uma zorra, já deve estar morta há uma remessa de dias, já cheira mal. Mas eu levo-a pelo menos tiro-lhe a pele e vendo a pele.

Meteu-a lá atrás na carrinha, ela mamou-lhe o peixe que lá tinha dentro da canastra, levou-lhe o peixe e as botas, desceu-se da carroça com o peixe e as botas.

Encontrou o compadre lobo, via ela trazendo peixes grados

– Hé comadre! Aonde é que foi ao peixe?

– Fui aquele pégo, se quiser vá também lá buscar que eu lhe ensino.

– Então diga lá como é que fez!

Então vamos lá. É assim com uma corda grande, ata-se ao pescoço com a pedra maior que encontrar lá na outra ponta, e depois joga-se para dentro do pégo. Cada mergulhinho cada peixinho, cada mergulhão cada peixão.

Lá lhe atou a corda ao pescoço, aventou-o lá para dentro e coitado, custou-se a dar de lá tirado.

– Aquela zorra enganou-me! Agora vou-me a ela.

Foi por ali bater até que a viu com umas grandes botas.

– Óh comadre! Que botas tão bonitas, onde as arranjou?

– Fiz eu!

– Então e não me faz umas para mim?

– Faço pois, mas tem que me trazer duas vacas e três ovelhas.

Ele trouxe, ela ia-as comendo.

Ao fim de uns tempos ele vem perguntar, então as minhas botas já estão feitas?

– Não, ainda tem de me trazer um touro e mais dois carneiros. E mais três galinhas.

Ele ia trazendo, ela ia comendo e nada de botas.

– Comadre eu quero já as minhas botas, já lhe trouxe tanto animal.

Ela agarra nas peles dos animais que já tinha comido, enrolou-lhas à volta dos pés. Ele começou a andar e aquilo caiu logo tudo. Foi a correr atrás dela, apanhou-a pelo rabo, arrancou-lhe o rabo e ela ficou rabina, mas fugiu.

– Agora conheço-te, és rabina.

O que é que eu faço? Agora assim que me vir conhece-me logo.

Bem, combinou um baile com as outras zorras e disse, agora a moda é assim, eu fico no meio que não tenho rabo e a vocês ato o rabo umas às outras e fazemos uma roda.

Assim foi, atou os rabos com muitos nós a prender umas às outras. Começaram o baile e começou assim:

– O que é que soa aí? Vou-me assomar ao alto do cerro, deixem-se estar.

Voltou a fugir e gritava, tanto caçador com tanto cão, na aflição para desatarem os rabos e fugir, com tanto puxão se arrancaram os rabos a todas.

E pronto, agora já o lobo não me conhece.

Nazaré Fabião

Amendoeira do Campo

30 de Setembro, 2020

[ Esta zorra malandra e manhosa, contada em bom vocabulário do Alentejo, arranja sempre soluções para pregar partidas ao lobo que como de costume nas histórias, é um tanso]

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