Há uma velha que não morre

Há uma velha que não morre, quem será essa velha?

Um casal estava num povo e estavam todos mal com aquele casal. A mulher teve um menino mas para convidar o padrinho do menino pois quem haveria de ser?

Bom, o que é que aconteceu?

Diz a mulher aqui assim, pois amanhã vais caminho adiante, e a primeira pessoa que encontrares é essa pessoa mesma que tu convidas para padrinha ou madrinho. Então indo andando, ouviu uma voz, para onde é que vais, vou convidar uma mulher ou um homem para padrinho do meu filho ao que lhe respondeu, estou aqui, sou eu.

Mas ele olhou para ela, uma velha tão feia, tão feia, tão feia uhh! Esta velha de um cabrão para madrinha do meu moço? E largou-a da mão.

À frente outra velha então vais aonde? vou à busca de madrinho para o meu moço, ela ofereceu-se mas ele olhou para ela e que é lá isto? É só velhas tão feias tão feias( Há velhas bonitas não é verdade? Mas há outras ehhh!).

Bom, só encontrava gente daquela, que é que havia de fazer, levou aquela, chegou a casa e disse à mulher, encontrei madrinha para o nosso filho, uma velha tão feia, tão feia, tão feia que tu não fazes ideia. Então não interessa nada ser feia, nem todos são bonitos, mas pode ser boa madrinha. A velhota chegou lá e todos comentavam Ehh! o que ele arranjou para ser a madrinha!

A velhota disse à mulher comadre, você não tem um quartinho para eu me vestir, mudar de roupa?

-Venha cá

Levou -a um quartinho mas ela não trazia nada na mão, como é que se ia mudar?

Saiu de lá parecia uma rainha, ó pá, parecia uma princesa.

A comadre ficou admirada, mas o que é isto? A mulher parecia tão velha e agora parece tão nova e com uma roupa tão bonita. E você é da onde? Só à tarde, quando me for embora, é que digo de onde eu sou, disse a outra. Convidem o povo para virem comer, ponham umas mesas aí nesse largo para encherem a barriga. Convidou ,mas o povo não quis, mas ela pôs as mesas na mesma. Tirou uma varinha bateu com ela em cima de uma mesa e apareceu tudo quanto havia de melhor no mundo, apareceu comida de toda a qualidade, bebida, tudo, e andava ali que parecia uma princesa, é pá, linda madrinha para o moço.

De maneiras que à noitinha ela diz, bom, eu vou lhe dizer de onde é que eu sou, eu sou a morte!

Ai comadre, você é a morte e quando é que me vem buscar? Eu logo lhe aviso para se preparar que logo a venho buscar e diz aqui assim e como é que você se chama comadre?

– Eu sou a velha miséria.

Baptizou-se o menino e a madrinha foi-se embora. Passaram os anos e a miséria já teria uns 80 anos e dizia, nunca mais vem a morte para me levar mas um dia a morte estava á cabeceira:

-Comadre! Vamos embora!

-Então, quem é você?

-Sou a morte.

-Você não me avisou…

-Não avisei? Abra lá a boca, onde estão os dentes? Já não há? Isso foi um aviso. O cabelo era preto, agora está todo branquinho, outro. E forças? Não tem. Mandei para cá tanto aviso, temos que ir embora!

Foram embora mas no meio do caminho passaram onde a velhota tinha a horta, e tinha uma pereira carregada de peras. Diz a comadre miséria, ai se eu tivesse umas perinhas para eu comer pelo caminho. Não, há lá muita comida para onde a gente vai, não precisa de ir a comer. Mas a outra insistiu e tanto brigou que a morte foi lá acima da pereira e apanhou umas peras, deixou cair a varinha de condão que bateu no tronco da pereira e a morte ficou lá agarrada. Ficou lá agarrada e assim não morria ninguém, mais de 20 anos sem morrerem pessoas, é claro a morte estava lá presa e não matava ninguém..

Bom, foram descobrir que a velha miséria é que tinha a morte lá presa. Foram ter com ela, tens que soltar a morte, tens que a soltar porque chega-se a pontos que não cabem as pessoas no mundo inteiro, o que é isto?

Ela diz, solto a morte sim senhor, mas numa condição, a condição de eu nunca morrer.

Portanto, a velha miséria nunca morreu.

Venceslau Sequeira Luís

Álamo

2 de Setembro /21

 

[A sessão no Álamo foi das mais ricas que fizemos este ano. Não só ouvimos ao Venceslau Sequeira inúmeras histórias preciosas, como foi um momento intenso de convívio entre os mais novos e os menos novos, os mais altos e os mais pequenos, com histórias e modas que são também modos de contar. Relembrámos que duas coisas nunca se acabam, a morte e a miséria.]

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