A Cultura Reinventada

Trabalhar em arte e cultura envolve, para mim, colocar em jogo competências como a imaginação, a fantasia, a criatividade e a inventiva. Bruno Munari, artista italiano, no seu livro Fantasia, refere-se à articulação de cada uma destas faculdades na comunicação visual, mas o seu trabalho ultrapassa o território das artes visuais. Munari, artista multifacetado, pedagogo, investigador e filósofo, influencía outras áreas e práticas artísticas, nomeadamente, aquelas desenvolvidas por artistas implicados socialmente, como é o meu caso.

Tendo consciencia de que pertence já ao meu fazer artístico a apropriação de princípios como a experimentação, a aprendizagem e as relações de interdependência com o contexto em que me integro, sei que quando concebo – ou invento – um trabalho ele passará, necessariamente, por um processo de reinvenção. Assim acontece quando se pretende criar experiências artísticas que envolvam a participação de outras pessoas ou entidades.

Ainda assim, apesar de algum tempo a exercitar a flexibilidade, a cooperação, a improvisação e a resiliência, a chegada de uma pandemia alterou o modo como habitualmente reajo a situações imprevisíveis. Se antes o caminho era sempre o do fazer, mesmo que com recuos, sprints, atrasos, desvios ou saltos para a frente, desta vez escolhi parar.

Sendo certo que a pandemia obrigou à suspensão, de um momento para o outro, de todas as actividades com pessoas ou grupos, nomeadamente, as educativas, artísticas e comunitárias, rapidamente observámos como várias destas acções passaram para o ambiente virtual e digital. No meu caso escolhi parar e foi essa a forma que encontrei para repensar o trabalho que venho desenvolvendo.

Num primeiro momento, ao dar por mim a reflectir e procurar perceber a magnitude do impacto que sentia, como todas as pessoas, na minha vida pessoal e profissional, apercebo-me da enorme implicação da imposição do distanciamento físico: o isolamento social, cultural e comunitário; e como não há ambiente digital que ocupe o lugar da proximidade entre as pessoas, sobretudo daquelas que já antes viviam isoladas e que não dominam as tecnologias de informação.

E aqui começa a reinvenção.

Se é necessário fornecer bens de primeira necessidade às pessoas mais vulneráveis, é igualmente importante garantir que estas continuam a ter acesso à arte, à cultura e à vivência comunitária, promovendo o seu bem-estar e a manutenção das próprias comunidades.

E assim surge o projecto De Boca em Boca – Histórias a nutrir Comunidades, em colaboração com Pedro Faria Bravo, na escrita, e Marlene Aldeia, na disseminação, desenvolvido em parceria com a CMM. Uma iniciativa que surge de uma ideia – a de que nos alimentamos também de arte e cultura – da qual decorrem os Contos ao Largo, momentos de partilha de histórias destes e de outros tempos.

De Boca em Boca, pode soar a provocação, mas não é. Pode amedrontar, em tempos em que nos encontramos à distancia e amordaçados, mas esperamos que não afaste, pelo contrario, que aproxime. É simplesmente o sonho de voltarmos a escutar ao perto, é a vontade de continuarmos a recontar as nossas vidas, é o desejo de nunca nos esquecermos de reinventar o mundo.


[texto escrito para a Agenda Cultural de Mértola III 2020]

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